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Os prefeitos do ABC Paulista que se engajaram na campanha de Flávio Bolsonaro no segundo turno claramente estavam cumprindo uma missão e fazendo um gesto ao governador Tarcísio de Freitas, de olho nos convênios e nas parcerias com o governo do Estado. No entanto, o que esses prefeitos não conseguiram medir foi o dano político que essa decisão poderia gerar.
Apesar de São Caetano do Sul ter um histórico de votação em candidatos do campo da direita, mais de 50 mil eleitores escolheram Lula como candidato, dando ao petista 41% dos votos, contra 58% de Flávio Bolsonaro. Embora o candidato do PL tenha sido escolhido por mais de 20 mil votos de diferença, não é possível desconsiderar o peso político dos eleitores que apertaram 13 nas urnas.
O fato é que São Caetano do Sul, por meio do prefeito Tite Campanella, tentava desconstruir Lula utilizando um discurso que a própria cidade construiu ao longo dos anos: o dos programas sociais. São Caetano oferece Vale-Farmácia, Vale-Mercado, Vale-Gás, cartão para material escolar e uniforme. Rebater Lula com críticas às transferências de renda não fazia sentido para o eleitor que utiliza esses programas.
Por fim, o discurso ideológico centrado em família e pátria não convenceu mais de 50 mil eleitores. Agora, o prefeito terá que se reconectar com esses moradores, que entraram no centro da discussão nacional, mas que também são beneficiários de programas municipais.
Em Santo André, que possui uma extensão territorial gigantesca e cuja massa votante também inclui moradores de bairros periféricos, o apoio do prefeito Gilvan a Flávio Bolsonaro foi ainda mais danoso do ponto de vista político.
A diferença de votos entre Flávio e Lula foi de apenas 3 mil votos, com Flávio alcançando 50,3% do eleitorado e Lula, 49,7%. Santo André, há três gestões, escolheu um modelo que pregava justamente o oposto da polarização: não se tratava de falar em direita ou esquerda, mas de políticas públicas capazes de transformar a vida das pessoas no dia a dia.
Gilvan, que tem sua imagem ligada aos bairros periféricos, também teve que amargar críticas nas redes sociais e enfrentar a mobilização da juventude, que tomou o calçadão da Oliveira Lima para conquistar votos para Lula.
Ribeirão Pires não foi diferente. A presença do prefeito Guto Volpi (PL) na campanha não foi vista pelos eleitores como uma boa estratégia. Após sofrer a derrota da chapa de deputados, Guto apostou em Flávio para tentar recuperar ou ampliar seu capital político na cidade. Mas o resultado mostrou que a presença do chefe do Executivo não foi suficiente para alterar o cenário: Lula terminou a votação no município com 100 votos a mais que Flávio Bolsonaro.
A principal vereadora de oposição, Fernanda Henrique (PT), liderou o contraponto e viu suas redes sociais ganharem força durante a eleição, ampliando seu capital político.
Diante desse cenário de polarização, ficou um aprendizado: trazer os temas nacionais para a realidade municipal nem sempre é um bom negócio. O político herda a rejeição do candidato, seja ele de esquerda ou de direita, cria indisposição com eleitores que o escolheram independentemente do campo político e ainda antecipa uma disputa nacional no ambiente municipal.
Resta agora aos prefeitos esperar a poeira baixar, aproximar-se novamente dos eleitores que se sentiram contrariados e retomar os discursos com base na realidade que cada cidade vive. É preciso fazer entregas, apresentar soluções para os problemas do dia a dia e colocar o cidadão sempre como prioridade, independentemente de Lula ou Bolsonaro.
















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