Opinião: Boechat e a tragédia nossa de cada dia

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Por Caio Bruno

“Quando a gente chora, sofre, lamenta o fato ocorrido ontem, a gente parece estar anestesiado ou gostar da anestesia que nos faz esquecer desse fato tão logo surja o fato de amanhã, que terá o mesmíssimo tratamento”


Eis o último comentário do jornalista Ricardo Boechat na Rádio BandNews FM na última segunda-feira (11/2) pela manhã, poucas horas antes de falecer em decorrência da queda de um helicóptero em que era um dos passageiros em pleno Rodoanel.

Obviamente que o comunicador não tinha ares de profeta e não falava de seu infortúnio que chocaria todo o Brasil, mas estava se referindo às mais recentes tragédias nacionais. O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG) levando lama e caos ceifando centenas de vidas, as fortes chuvas do Rio de Janeiro que causaram sete mortes e outros tantos desabrigados e o triste incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo causando a morte de dez jovens e ferindo outros três.

A mensagem que nos traz a fala final do saudoso Boechat é a triste constatação de que nos acostumamos com as tragédias e mal temos tempo para digerir uma, lá vem outra. Encaramos irresponsabilidades, imprudências e crimes como acidentes inevitáveis. Não pedimos apuração e nem exigimos investigação. O que nos resta é lamentar as vidas perdidas, entristecer ao ver as cenas se repetindo como em um looping e aguardar bovinamente pelo próximo descaso.

A história da formação da moral, cultura, religião e ética da sociedade brasileira talvez explique essa pacificidade exacerbada perante aos fatos. Nossa letargia é uma questão de sobrevivência e fomos acostumados a obedecer, sem questionar.

O rompimento da barragem de Brumadinho tem como causa negligência e como consequência vários crimes ambientais e contra a sociedade que ali habitava, As enchentes causadas pelas chuvas no Rio de Janeiro se agravaram devido à negligência do poder público, o incêndio no CT do Flamengo não se deu por falta de aviso, já que não possuía alvará e fora multado por mais de 30 vezes, por fim, o acidente com o helicóptero que transportava o jornalista não tinha autorização para operar como táxi aéreo. Em todas essas ocasiões, repito, não  houve acidente inevitável, eram situações que poderiam ter sido evitadas.

Talvez o “canto do cisne” de Ricardo Boechat tenha servido como alerta para que um dia possamos deixar de nos conformar com aquele ditado popular que diz que o “jornal de hoje embrulha o peixe na feira de amanhã”. Em outras palavras: que a vida continua sem controle e sem consequência com os fatos se sucedendo sem reação e que a nós só resta esperar a próxima tragédia.

Caio Bruno é jornalista e morador de São Caetano