Por Regiane Nunes

Todos nós, pessoas com e sem deficiência precisamos do acesso à informação, acesso ao hospital, ao médico, ao teste, ao respirador, a vida! Talvez você nunca tenha se atentado a esses “detalhes”…
Esqueçam a Regiane Nunes atleta de alto rendimento, guardemos nas gavetas medalhas, títulos e recordes. Hoje me apresento como Regiane Nunes, cidadã, pessoa com deficiência e profissional da Saúde, (nutricionista e educadora física).
É indiscutível, a pandemia da Covid-19 sobrecarrega qualquer sistema, serviço ou setor de saúde. De norte a sul, de leste a oeste, do oriente ao ocidente, dezenas, centenas, milhares de pessoas são infectadas, algumas ficam doentes, umas são curadas, e outras morrem.
Dados subestimados pela insuficiência de testes, a orientação aos profissionais da saúde é priorizar casos, avaliar, julgar, escolher quem será testado, isolado e possivelmente quem terá acesso a um respirador, quem terá a chance de viver.
Frequentemente falo aqui sobre a importância da acessibilidade em diferentes cenários e perspectivas, mas hoje destaco a vulnerabilidade das pessoas com deficiência em meio a crise mundial da Covid-19, nas medidas de enfrentamento, (prevenção, diagnóstico, acolhimento e tratamento).
Talvez você nunca tenha se atentado ao que pode parecer um simples detalhe, mas que pode salvar vidas.
Percebam as diferentes barreiras existentes e a importância da acessibilidade além das rampas, dos elevadores e corrimãos… Devemos pensar na acessibilidade, não apenas como algo a ser conquistado, e sim como algo a ser garantido.
ACESSIBILIDADE DIGITAL
Ela é uma vertente da acessibilidade comunicacional que merece destaque, afinal de contas, vivemos a “era digital”! Sem sair de casa, respeitando o isolamento social, somos bombardeados de notícias, informações, recomendações, tudo isso em um simples “click”, na ponta dos dedos, na tela da TV, do celular, fotos, imagens, figurinhas, gráficos, vídeos, animações didáticas, entretenimento.
Facilidade em realizar uma compra, um pagamento, um agendamento, uma simples consulta, assistir um show, tudo online. Tudo diante de todos, será?
Já pararam pra pensar que no mundo virtual/digital, não existem escadas ou elevadores, Mas ela deveria estar ali. O link que não abre, o formulário que não carrega, o serviço ou a informação extremamente importante que está oculta, e-mail a dezenas e dezenas de propagandas.
Quando não há o mínimo, do mínimo, em acessibilidade, realizar tarefas teoricamente simples, como assistir um filme/vídeo, pagar um boleto, ou buscar uma informação, pode ser uma ação frustrante, irritante, cansativa, desgastante. A questão pode ser urgente, e aí reclamar para quem?
ACESSIBILIDADE COMUNICACIONAL
Não há tempo à perder! “o que ele disse?”, “As informações estão no painel”, “Vá por ali”, “O que você está sentindo?”, “a fala dele é enrolada”, não tem outro caminho, empatia é o único medicamento comprovadamente eficaz, e é o que nossos heróis da saúde precisam usar sem moderação no atendimento de um paciente com deficiência, que pode ou não conseguir dizer o que sente, que pode ou não estar acompanhado, que pode ser independente ou extremamente dependente.
Será que mudos e surdos são imunes ao Coronavírus? Acho que não… E as clinicas, hospitais, postos de saúde e afins estão aptos ao acolhimento dessas pessoas?
ACESSIBILIDADE ARQUITETÔNICA
Sem sombra de dúvidas, é nela que todo mundo pensa quando ouve a palavra ACESSIBILIDADE, o elevador, a rampa, o piso tátil, o banheiro adaptado.
Você, caso apresente sinais e sintomas da Covid-19, desejará com certeza ter acesso a um transporte pessoal ou público, acesso ao hospital, ao médico, desejará realizar o teste, e assim por diante. E se por algum acaso você fosse impedido de qualquer uma dessas ações simplesmente pela existência de uma escada na porta do hospital? Ou por que o Ônibus não é adaptado?
Só se percebe, quando se precisa. Ela não é uma escolha, ela é um direito, Mas o ciclo vicioso se repete, e só em dias de grande turbulência sua ausência é notada…
ACESSIBILIDADE ATITUDINAL
Como seria o isolamento hospitalar ou domiciliar de um paciente autista, com Síndrome de Down ou com deficiência intelectual? Todos nós temos direito a vida, não podemos ser preteridos, devemos ser acolhidos…
Tudo deveria começar aqui, trata-se da percepção do outro sem discriminação, sem padronização, respeitando as particularidades de cada pessoa, de cada indivíduo.
Na realidade antagônica deste belo conceito, os recursos para atendimento, diagnóstico e tratamento da Covid-19 são limitados e devem ser usados com parcimônia. No momento, os kits de testes são disponibilizados apenas para casos sintomáticos críticos, ou seja, se a pessoa tem um quadro sintomático leve, recomenda-se o isolamento em casa e o tratamento padrão para um quadro gripal comum.
Em geral, nossos heróis da saúde são extremamente capacitados para tratar doenças e patologias, no entanto, nessa avalanche física e emocional a qual estão submetidos, desconhecem as peculiaridades de cada deficiência.
Podemos citar as pessoas com tetraplegia ou doenças neuromusculares, que apresentam predisposição a pneumonias, por menor expansão da caixa torácica e diminuição da função pulmonar. Assim como por exemplo as pessoas com Síndrome de Down, ou as com deficiências múltiplas, que em sua grande maioria apresentam baixa imunidade, sem falar das deficiências causadas por comorbidades associadas como os diabéticos. Logo, essas pessoas com deficiência precisam ser testadas, mesmo com sintomas leves, pelos motivos supracitados, além de outros fatores como a dificuldade de locomoção ou até mesmo de auxílio.
A tempestade da Covid-19 abala todo o mundo, mas só com equidade TODOS TEREMOS DIREITO A VIDA.
















