HISTÓRIA & MEMÓRIA: NOSSA MAUÁ ONTEM E HOJE


Por Daniel Alcarria

OS MOVIMENTOS POPULARES DE MAUÁ: DOS CANTEIROS ESCARPELINOS AOS ESTUDANTES, A LUTA DE CLASSES PULSA DESDE OS TEMPOS DO PILAR
Manifestação em frente a Prefeitura

Conforme descrito na edição anterior, quando tratamos sobre o desenvolvimento econômico, as pedreiras do Pilar, depois Mauá, foram berço dos escarpelinos (trabalhadores especializados no trabalho com as pedras) e seus movimentos sindicais pioneiros, datados da primeira década do século XX. Com o desenvolvimento industrial e a conseqüente urbanização do local, também a classe operária e o conjunto dos moradores da crescente cidade se mobilizaram na luta por igualdade de direitos.

Mutirão no Parque das Américas

Na época das pedreiras só trabalhavam italianos e descendentes, eles que eram peritos no trato com o material. E possuíam também consciência de classe, reproduzindo em Mauá (ainda Pilar) a influência anarco-sindicalista de raiz italiana.  Esses trabalhadores eram bastante unidos e organizados tendo inclusive formado sindicatos e associações na defesa de seus interesses. As greves eram proibidas, sendo, entretanto registradas várias delas, como a de 1913, liderada pelos irmãos Fernando e Alexandre Zanella.

Comício Pró-Emancipação

As greves eram fortemente reprimidas pela polícia. Enquanto que o italiano Alexandre Zanella foi deportado para a Itália em decorrência de sua participação nas atividades grevistas em Pilar, seu irmão Fernando continuou a liderar os movimentos operários e sindicais dos trabalhadores das pedreiras. Outras greves registradas em Mauá teriam ocorrido em 1930 e 1932.

OS PRIMEIRO SINDICATO

Depois das pedreiras, os trabalhadores das fábricas de louça, porcelana e cerâmica dariam seqüência à organização operária na cidade de Mauá, quando em 7 de outubro de 1957 foi fundado o Sindicato dos Trabalhadores nas Industrias de Cerâmica de Louça, Pó de Pedra, Porcelana e da Louça de Barro de Mauá, a primeira entidade sindical legalmente constituída na cidade. Seu primeiro presidente foi Nelson Pereira dos Santos, seguido de Francisco Polidoro.

Canteiro na gruta Santa Luzia

No auge do período da cerâmica, as empresas locais empregavam grande quantidade de trabalhadores, que por sua vez acumulava força política, ao ponto de eleger inclusive o primeiro prefeito de Mauá (Ennio Brancalion) em 1954 e diversos vereadores classistas, como Sérgio Viola (Presidente do Sindicato dos Ceramistas em 1964) e outros representantes dos trabalhadores. Greves foram diversas, com destaque para a dos trabalhadores da Porcelana Mauá, em 1968, em plena ditadura. É certo, portanto a enorme contribuição da classe operária na construção da nossa história.

OUTROS SINDICATOS E MOVIMENTOS

Atualmente Mauá possui subsedes de sindicatos de diversas categorias (professores, metalúrgicos, químicos, rodoviários, ferroviários, comerciários, economia informal, entre outros), que protagonizaram no decorrer do tempo histórico movimentos que fizeram serem sentidos e lembrados, que provocaram avanços e mudanças na cidade.  O Sindicato dos Petroleiros de Mauá (fundado em agosto de 1960) realizou uma grande greve em 1962, uma greve de cunho nacionalista, que visava à incorporação de empresas privadas à estatal Refinaria de Capuava.

Antes ainda, desde os anos 1940, como resultado do crescimento industrial e urbano de Mauá, a população da cidade mobilizou-se em torno do ideal emancipacionista, conquistada com muita luta em novembro de 1953, através da vitória do SIM no plebiscito que nos separou de Santo André.

Primeiro prefeito Enio Brancalion

Uma das últimas categorias a ter seu sindicato organizado na cidade foi o funcionalismo público. Por questões legais (?), os trabalhadores do serviço público eram proibidos de promover greves e organizar sindicatos, somente legalizados com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Com isso, em 30 de novembro de 1988 surge o Sindicato dos Servidores Públicos de Mauá, tendo Luiz Sant’anna como seu primeiro presidente, seguido de Jesomar Alves Lobo. 

RESISTÊNCIA À DITADURA (1964-1985)

A resistência democrática também escreveu importantes páginas na história de Mauá. No plano religioso, a atuação de clérigos como Dom Jorge Marcos de Oliveira e dos padres José Mahom (o padre operário) e Alfredo Praxedes, entre outros, na luta pela democratização e na defesa dos perseguidos políticos, encorajou a sociedade em suas legítimas reivindicações sociais.

        Sem dúvida, o maior e mais organizado foco de resistência à ditadura militar floresceu no Jardim Zaíra, cuja Sociedade Amigos de Bairro abrigou a   Ação Popular (AP), uma organização de esquerda ligada à igreja católica e que na cidade era liderada pelo padre Praxedes. A célula de Mauá teria sido organizada em 1963 e contou com a participação de uma das três vítimas mauaenses da ditadura, Raimundo Eduardo da Silva.

Além da AP, jovens de Mauá participaram também da Ação Libertadora Nacional (ALN), caso de Francisco Seiko Okama, e do Partido Operário Revolucionário (PORT), do qual participou a terceira vítima mauaense da ditadura, Olavo Hansen. Tanto Okama quanto Hansen, assim como Raimundo foram barbaramente torturados e assassinados pela ditadura.

MOVIMENTO ESTUDANTIL – Da UNIME à UMES                   

Também os estudantes organizaram seus movimentos, registrados na história da cidade. A primeira organização estudantil de Mauá foi o Grêmio Estudantil XI de Março, do Ginásio Estadual Visconde de Mauá, fundado em 27 de maio de 1957. No final de 1963 é fundada a UNIME – União Municipal dos Estudantes de Mauá, cujo presidente foi Antonio Paulino Pinto Nazário.

No inicio dos anos 1960, os estudantes de Mauá protagonizaram importantes lutas, com destaque para a questão da reforma e ampliação do Ginásio Visconde de Mauá, que se arrastou por anos. Parte dessa luta foi a paralisação/greve denominada de “Movimento Paredista”, de 1963, quando os alunos, bem como os pais e a própria Direção da escola ameaçaram construir uma parede na entrada da escola para bloquear e impedir a entrada de pessoas no prédio. Com o golpe cívico-militar de 1964, as entidades foram fechadas e colocadas na ilegalidade.

Após um longo período de inatividade, como resultado da redemocratização do Brasil o movimento estudantil reorganiza-se com a fundação da UMES, em setembro de 1990. Mas já no ano de 1989 é organizada a Comissão Pró-UMES. O I Congresso ocorre durante os dias 22 e 23 de setembro de 1990 e conta com a participação de diversos Grêmios Estudantis e um bom número de estudantes. Quando do processo de impeachment do ex-presidente Collor, entre 1991 e 1992, Mauá organizou grandes mobilizações em passeatas com mais de dez mil estudantes. 

Referências bibliográficas:

MEDICI, Ademir. De Pilar a Mauá. Prefeitura Municipal de Mauá, 1986.

PUNTSCHART, William; DOTTA, Renato Alencar; BONNI, Willer e PIQUEIRA, Mauricio Tintori. Participação Política em Mauá: da Emancipação às conquistas sociais 1954-2004.  Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.

ALCARRIA, Daniel. História do Movimento Estudantil no ABC. Mimeo, 2007.

(*) Jornalista, historiador e ex-membro do CONDEPHAAT-MA (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico) de Mauá.