Breve história da imprensa local

            As primeiras formas de comunicação e difusão das notícias no pacato distrito do Pilar, então estação da São Paulo Railway, datam do inicio do século XX; inicialmente com um “radio de galena[1]”, de propriedade da família Morelli (que viria logo depois adquirir o primeiro aparelho da cidade), depois com um rádio de verdade, as notícias, musicas e novelas radiofônicas eram tocadas e difundidas aos poucos moradores locais e às casas próximas da estação ferroviária.

       Aquela altura, no pequeno lugarejo do Pilar, depois Mauá, não havia bancas de jornal e revistas. A solução era então esperar até domingo, quando o trem das 7h40 que vinha de São Paulo trazia um jornaleiro que descia na estação e vendia os jornais do dia. Não havia jornais na cidade e as noticias sobre Mauá eram publicadas em periódicos de São Bernardo ou Santo André, como a “Folha do Povo”, “O Imparcial” e outros. Conforme Valdenízio Petrolli e sua obra “Imprensa do Grande ABC: 100 anos depois…”, os jornais que circularam na chamada Fase Artesanal da imprensa no Grande ABC (1904 a 1947) tinham influência reduzidíssima ou nada, junto aos seus leitores. Utilizavam-se de uma linguagem prosaica para descreverem os noticiários, sem analisar com mais rigor os problemas e provocar o debate entre os seus leitores, mesmo porque esses jornais eram mantidos pela oligarquia local que estava mais interessada no seu status quo e na manutenção de sua hegemonia política e social. Não havia motivo para que mudar esse sistema enraizado.

A FOLHA DE MAUÁ E OUTROS JORNAIS (1949 A 1990)

            Correto afirmar que a história da imprensa sempre provou que para manter um jornal, além do idealismo, é necessário, antes mais nada, de recursos humanos e financeiros. No caso da “Folha de Mauá”, primeiro jornal genuinamente mauaense que se tem notícia, o ideal emancipacionista foi o grande motivador desse periódico fundado em 1949 pela “Sociedade Amigos de Mauá”. Dirigido por Anselmo Haraldt Wallendy, membro da Comissão Pró-Emancipação, o jornal foi decisivo para a vitória do SIM no plebiscito de 1953 e porta-voz de Mauá na luta pela separação de Santo André. Sua ultima edição foi publicada em 1967. Destaca-se no período a existência de um jornal estudantil denominado de “O Papagaio”, surgido em 1963 e realizado pelos estudantes do Ginásio Estadual Visconde de Mauá. Foi o primeiro do gênero na cidade.

            Na segunda metade da década de 50 (1958), surgiu o jornal “A Paulicéa”, tendo como diretor responsável João de Brito Sobrinho. Sua redação ficava no atual Zaíra e seu proprietário Leandre Jorge. Não se tem registro de sua dissolução e a data de seu desaparecimento é incerta, sendo provável que tenha sobrevivido até 1968. Geraldo Antão Piedade, fundador da “Voz de Ribeirão Pires” em 1956 abre seu congênere mauaense “A Voz de Mauá” em 1970. Esse periódico circulou até 2017. Em novembro de 1980 surge a “Folha de Mauá” (sem qualquer ligação com o antigo jornal de 1949), que funcionou ate março de 1981. Voltou como “Folha de Mauá e Ribeirão Pires” em dezembro de 1983 e em 1984 foi transformado no jornal “Cidade de Mauá”. Passaram por esses jornais do inicio da década de 1980 Clóvis Volpi, Manoel Mendes Junior, Rubens Justo e Gemecê de Menezes.

OS JORNAIS DOS ANOS 1990

            A partir dos anos 1990, a cidade observou a proliferação de uma grande quantidade de pequenos jornais, muitos deles (assim como os demais) cumprindo papel de “porta-vozes” dos grupos políticos que rivalizavam as disputas pelo poder local. Nesse período surgiram inúmeros periódicos, dentre os quais citamos o “Jornal da Cidade”, o “Mauá em Notícias”, o “Jornal do Centro”, a “Folha de Mauá”, “Jornal da ACIAM”, “a Tribuna” e outros; dos anos 2000 em diante, pelas mesmas razões e com raras exceções, surgem outras publicações: jornal “Opinião Pública”, “Tempo Real”, “Mauá Agora”, “Mauá em Notícias”, “Mauá Hoje”, os segmentados “Esporte Certo” (esporte), “Quarta Ordinária” (humor) e o “Jornal do Estudante”.

            A imprensa “oficial” surge em 1997 com o “Jornal de Mauá” e com o “Diário Oficial” nos anos 2000. O primeiro era um informativo diversificado com informações da prefeitura e da Câmara, com notícias e matérias que retratavam os serviços públicos, o esporte, a história dos bairros e da cidade; ao “Diário”, a incumbência de publicar os atos oficiais.  É provável que outros jornais tenham circulado na cidade desde então.

RADIO, TV, INTERNET

            Inaugurada em 8 de dezembro de 1989, a “Rádio Mauá 1490 AM” apresentava uma programação comercial marcada por música, jornalismo e programas de variedades. Depois adquirida pela igreja (1995) e transformada na rádio “Imaculada Conceição”, a rádio continua no ar apresentando programação religiosa com sede em São Bernardo do Campo. Em 1997 surgia no jardim Zaíra a “Rádio Z FM”, estação de curto alcance e comunitária cuja freqüência é o 87,5. Quanto à TV, as poucas experiências foram construídas através da web, assim como as web rádios; em 2011, a Câmara Municipal chegou assinar convênio com a TV Assembléia para compartilhamento de sinal com a cidade. Infelizmente o legislativo não deu seqüência ao projeto, interrompendo uma oportunidade histórica de Mauá ter uma TV local. As novas tecnologias e as redes virtuais ocuparam seus espaços nas configurações de mídia que conhecemos e temos hoje.      

DE ANSELMO WALENDY A ROBERTO SILVA

            Dos fundadores de jornais e comunicadores que marcaram suas presenças na história da comunicação de Mauá, certamente o nome de Anselmo Haraldt Walendy deve ocupar um lugar de destaque. Anselmo foi correspondente do tradicional “A Gazeta Esportiva” por cinco anos, além de autonomista e fundador da “Folha de Mauá”, jornal responsável pela vitória do plebiscito que concedeu a independência de nosso município. Merece citação Osvaldo Donadio, líder comunitário ligado ao PCB desde a década de 60, jornalista da “Hora do Povo” falecido nos anos 80. E Roberto Silva, o “Olho Vivo” do Rádio, trabalhou na Rádio Bandeirantes e cobriu várias Copas do Mundo, inclusive a conquista do tricampeonato da seleção brasileira, em 1970. Roberto faleceu pouco depois de assistir a sua ultima partida de futebol (Grêmio Mauaense e Palestra de São Bernardo), no estádio municipal de Mauá em 2003.

Referências bibliográficas:

MEDICI, Ademir. De Pilar a Mauá. Prefeitura Municipal de Mauá, 1986.

PUNTSCHART, William. Mauá: Entendendo o passado, trabalhando o presente e construindo o futuro. Noovha América, 2012.

PETROLLI, V. Imprensa do Grande ABC: 100 anos depois… In: II ENCONTRO NACIONAL DA REDE ALFREDO DE CARVALHO, 2004, Florianópolis. Disponível em: http://www.ufrgs.br/. Acesso em: 04 jan. 2015.

 (*) Jornalista e Graduado em História pela UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)


[1] O Radio de Galena é chamado também de “receptores de rádio sem alimentação”, radio a cristal, receptor do bigode de gato, etc.. Ele é o mais simples receptor de rádio, popular nos primeiros anos do rádio, retornando ao auge na segunda guerra. Ela não precisa de bateria ou fonte de alimentação e funciona a partir da energia das ondas de rádio captada por sua antena, um longo fio. O nome de Radio Cristal vem de seu componente principal, conhecido como  detector de cristal , originalmente feito com um pedaço de  galena. Mas vários tipos de detectores foram usados, na segunda guerra foi muito usado lâmina de barbear, atualmente é usado diodos de germânio ou silício.